Tem uma fronteira que eu já atravessei tantas vezes que ela deixou de ser fronteira. Virou hábito, ritual, promessa. Do lado de lá da divisa, o campo se abre, o ritmo muda — e qualquer coisa que tenha ficado pra trás em Porto Alegre some, como se o Uruguai soubesse que precisa te desacelerar antes de te encantar.
A primeira vez que fui ao Uruguai, não sabia bem o que esperar. Sabia que era perto, que era tranquilo, que tinha praias lindas. O que não sabia era que aquele país pequeno e quase discreto no mapa guardava vinícolas que mudariam a minha forma de entender o vinho sul-americano. Hoje, depois de cinco, seis viagens — perdi a conta com o maior prazer —, posso dizer com convicção: o Uruguai é o destino mais subestimado da América do Sul para quem ama vinho de verdade.
A viagem começa na fronteira. É tranquila, sem drama, sem fila longa — uma das mais gentis que já cruzei. Do lado uruguaio, a paisagem muda sutilmente: o campo se abre mais, as cidadezinhas aparecem pequenas e humildes, e o ritmo do carro parece cair junto com a pressa. A lei — e é lei mesmo, de coração — é parar em Punta del Diablo. Pelo menos uma noite. Uma pousada à beira-mar, o vento atlântico na janela, a conversa gostosa em espanhol com os nativos e aquela sensação de que o tempo pertence só a você. De lá, a viagem segue sem pressa: José Ignacio, Punta del Este, Montevidéu. Cada lugar com a sua personalidade, cada parada com a sua história — e vinícolas incríveis pelo caminho. A Bodega Bouza, com sua elegância e história familiar, e a Bodega Pizzorno, com vinhos que respeitam profundamente o terroir uruguaio, são paradas que ficaram marcadas e que compõem esse mosaico único que é o vinho do Uruguai.
Há vinhos que você bebe. E há vinhos que você lembra.
O Tannat do Uruguai é, invariavelmente, do segundo tipo.
Contexto
O Uruguai que ninguém esperava — e o Tannat que conquistou o mundo
O Uruguai não é o primeiro país que vem à mente quando se fala em vinho sul-americano. Argentina e Chile monopolizam essa conversa — mas quem conhece o Uruguai de perto sabe que o país guarda algo muito especial. A uva Tannat, originária da região de Madiran no sudoeste da França, encontrou no Uruguai o seu segundo lar — e talvez o seu melhor. O clima atlântico, as amplitudes térmicas entre o dia e a noite, e os solos graníticos da região de Maldonado criam condições únicas para vinhos de profundidade e elegância raras. Não à toa, a Bodega Garzón colocou o Uruguai no mapa do vinho mundial. Mas além dela, há um universo inteiro de vinícolas familiares que produzem com alma, com história, com vinhos que ficam na memória por muito tempo.
As vinícolas que ficaram na memória
01
🇺🇾 Uruguai · Maldonado
Bodega Garzón — Tannat Reserva
Vinho Tinto · Tannat · Garzón, Maldonado, Uruguai
Se existe uma vinícola que é obrigação parar toda vez que você passa pelo Uruguai, para mim ela se chama Bodega Garzón. A vista das colinas de Maldonado é simplesmente espetacular — um anfiteatro natural com vinhedos que se estendem até onde a vista alcança. Os vinhos têm uma qualidade que não surpreende quando você entende o terroir: o solo granítico de Garzón é único na América do Sul, e ele aparece nos vinhos com uma mineralidade e uma elegância que poucas regiões conseguem entregar. O restaurante, comandado pelo renomado chef Francis Mallmann, transforma a visita em experiência completa — a carne, o vinho e a paisagem se completam de uma forma que é difícil colocar em palavras. Já fui várias vezes. Vou voltar sempre.
Frutas Negras
Especiarias
Cedro
Tanino Sedoso
Mineralidade Granítica
02
🇺🇾 Uruguai · Maldonado
Viña Edén — Elegância do espumante ao Tannat Cimento
Espumante & Tannat · Maldonado, Uruguai
Se a Garzón impressiona pela grandiosidade, a Viña Edén conquista pela elegância — desde o local, que é espetacular, até o último gole de cada vinho. Os espumantes revelam uma precisão e uma fineza que genuinamente surpreendem. Mas o que mais ficou na minha memória foi o Tannat Cimento: vinificado em tanques de concreto, sem a madeira nova para dominar a cena, ele fala diretamente do terroir, da uva, do trabalho na vinha. Uma textura mais redonda, mais integrada, mais honesta. Há uma pureza nessa escolha que eu admiro imensamente. Fizemos a degustação guiada, almoçamos no restaurante — e saímos de lá com a certeza de que o Uruguai produz vinhos que pertencem a qualquer conversa séria sobre vinho sul-americano. A reserva é necessária. E vale cada esforço.
Pão Brioche
Amora
Violeta
Borbulha Fina
Elegante e Preciso
Viña Edén — onde cada taça é um diálogo com a paisagem
03
🇺🇾 Uruguai · Maldonado
Altos de la Ballena — A vinícola que conta a sua história
Vinho Tinto · Tannat · Maldonado, Uruguai
Das vinícolas que visitei no Uruguai, Altos de la Ballena é a que mais carrega o que eu chamo de alma de projeto. A proprietária nos recebeu pessoalmente, fez a degustação dos seus vinhos e contou a história da vinícola — com aquela paixão genuína de quem construiu algo com as próprias mãos e acredita em cada garrafa que produz. Os vinhos são maravilhosos: o Tannat tem elegância sem perder a estrutura que faz do Uruguai um destino único. Foi uma das conversas mais gostosas que já tive com uma produtora. O tipo de encontro que só uma vinícola familiar é capaz de oferecer — e que nenhuma grande bodega vai conseguir replicar.
Violeta
Ameixa Preta
Pimenta
Tanino Firme
Alma Familiar
04
🇺🇾 Uruguai · Maldonado
Bodega Oceánica José Ignacio
Vinho Tinto · Tannat · Maldonado, Uruguai
Localizada no departamento de Maldonado, a Bodega Oceánica José Ignacio carrega no nome algo que o Uruguai inteiro tem: a presença do oceano em tudo. A influência atlântica sobre o terroir desta região é inegável — ela aparece na frescura dos vinhos, na acidez viva, na mineralidade que persiste na boca muito depois do último gole. Uma visita que confirma o que eu já sabia: no Uruguai, cada vinícola tem a sua própria voz. E a José Ignacio fala com a autoridade de quem entende profundamente o lugar onde está plantada.
Frutas Vermelhas
Ervas Finas
Especiarias
Frescura Atlântica
Mineralidade Viva
05
🇺🇾 Uruguai · Canelones
Bodega Pisano — RPF Tannat
Vinho Tinto · Tannat · Canelones, Uruguai
O RPF Tannat da Bodega Pisano é um daqueles vinhos que entram na sua vida e não saem mais. A família Pisano produz vinho no Uruguai há gerações — e isso aparece em cada detalhe do RPF: um Tannat de personalidade marcante, com estrutura e profundidade, mas com aquela suavidade que só o tempo e o conhecimento conseguem dar. Eu sou apaixonada por este vinho. Ele representa, para mim, o melhor que o Uruguai tem a oferecer em termos de vinícola familiar com tradição: raízes fincadas no terroir, coração de quem ama o que faz, e um Tannat que rivaliza com qualquer referência do mundo.
Amora Madura
Tabaco
Baunilha
Estrutura Elegante
Tradição Familiar
06
🇺🇾 Uruguai · Maldonado
Tannat Rosé — O lado surpreendente da uva mais uruguaia
Vinho Rosé · Tannat · Garzón, Maldonado, Uruguai
Quem conhece o Tannat pelo lado mais sério — tânico, estruturado, de guarda — se surpreende quando encontra o Tannat Rosé. É a mesma uva de personalidade forte, mas mostrando uma face completamente diferente: fresca, mineral, com frutas vermelhas vibrantes e uma acidez que pede praia, parrilla e boa companhia. É o vinho das tardes uruguaias. Aquele que prova que o Tannat é muito maior do que a maioria imagina — e que o Uruguai ainda tem muito a nos surpreender.
Framboesa
Romã
Flor de Hibisco
Mineral e Seco
Vibrante
07
🇺🇾 Uruguai · Montevidéu / Rivera
Bodega Carrau — Amat
Vinho Tinto · Tannat & Corte · Uruguai
A Bodega Carrau é uma das maiores histórias do vinho sul-americano. Família catalã radicada no Uruguai desde 1752 — sim, antes mesmo da independência do país —, os Carrau construíram ao longo de gerações uma das produções mais respeitadas e longevas do continente. O Amat é o vinho que sintetiza tudo isso: um corte de profundidade e complexidade raras, com o Tannat como espinha dorsal e uma elegância que só o tempo e a tradição conseguem entregar. Bebê-lo é, de certa forma, beber a própria história do Uruguai. Uma experiência que não se explica — se sente.
Frutas Negras Maduras
Cacau
Especiarias Finas
Estrutura Nobre
Tradição desde 1752
Punta del Diablo — a primeira parada, sempre
Do outro lado, sempre tem algo esperando
Cada vez que entro no Uruguai, fico com a sensação de que esse país guarda algo que o mundo ainda não descobriu completamente. Não é só o vinho — é a forma como as pessoas recebem, como o tempo passa diferente, como uma taça de Tannat numa vinícola de família vale mais do que qualquer adega famosa de qualquer outra parte do mundo.
E a carne — não posso não falar da carne. A parrilla uruguaia e o assado de tiras são de uma qualidade que nenhuma versão que já comi em outro lugar chegou perto. Com um Tannat estruturado na taça, é uma das combinações mais honestas e completas que a gastronomia pode oferecer. Simples assim, perfeito assim.
Na Brisa Mar, em breve vamos escolher um vinho uruguaio para a nossa curadoria, e será sempre com essa memória de viagem na cabeça — a vista de Garzón, a conversa com a proprietária da Altos de la Ballena, o vento atlântico em Punta del Diablo, e o RPF Tannat que nunca sai da lembrança. Se você quiser conhecer os vinhos do Uruguai sem precisar cruzar a fronteira — ou se quiser beber enquanto planeja a viagem —, estou aqui, com a taça na mão e a fronteira ainda viva na memória.
Escrito com afeto por
Rafaela Crossetti
Sommelière
Brisa Mar Vinhos
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